Letras da música brasileira: Da mala falsa às mil lágrimas
- 8 de ago. de 2018
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Esses dias, numa festa de família, tocou uma música assim: “A mala é falsa, amor, engole o choro, embora eu não vou”.
Minha irmã disse que por muito tempo ela achou que “embora” nesses versos servia como uma conjunção, com o mesmo sentido de “ainda que”. Como se fosse: “A mala é falsa, amor, engula o choro, ainda que eu não vá”. Não faz muito sentido, pois é como se a garota (ou o garoto) devesse chorar pelo eu lírico continuar com ela. Mas o engano é compreensível.
A culpa é de quem escreveu a letra. Na dificuldade de encontrar uma forma melhor de dizer o que ele queria dizer, dentro dos limites do ritmo e das rimas da música, ele tirou o “embora” de depois do verbo ir e colocou-o antes. É um verso ruim, feio, porque fazer um melhor era mais difícil.
Eu não quero criticar a música nem o compositor. Quer dizer, eu já critiquei, mas não é nada pessoal. Como disse Fernando Pessoa, odeio "não quem escreve mal portuguez, [...] mas a pagina mal escripta (sic)". Odeio o pecado, não o pecador. O objetivo da música não era ser um grande poema da literatura brasileira, era apenas ser uma música divertida e cantável pelo brasileiro bêbado médio. E nisso ela foi muito bem sucedida. Apesar de às vezes enganar algumas pessoas quanto ao significado da letra. Mas ninguém se importa realmente com isso.
Letras pouco poéticas não são privilégio da música sertaneja universitária do século XXI. A música popular brasileira está recheada de letras ruins.
Vinicius de Moraes, um de meus poetas preferidos e um dos poetas mais famosos do Brasil, escreveu muita letra de bossa nova, além dos sonetos. “Chega de saudade” é um ícone desse estilo, um símbolo da bossa nova quase tão grande quanto “Garota de Ipanema”. A letra é de Vinicius, a melodia é de Tom Jobim, o maior músico brasileiro de todos os tempos, a batida do violão é de João Gilberto, que não está muito longe de Tom. Ela foi lançada no livro “Canção do amor demais”, canta por Elizeth Cardoso, e depois deu título ao disco debutante do próprio João Gilberto. Esses dois discos, juntos, são os marcos iniciais do que se chamaria bossa nova. Ou seja, música intelectual, fina, nada desse lixo que os jovens escutam hoje em dia. E a letra é de Vinicius de Moraes.
Ele escreveu: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca”.

Quase 29 beijos pra lhe dar.
Um dos maiores poetas do Brasil rimou “peixinhos” com “beijinhos”. Dizem que ele até brigou com a mulher dele à época, porque ela disse que o verso era ruim, e ele não gostava que criticassem seus versos.
"Chega de saudade" foi um sucesso, e até hoje é uma das canções mais emblemáticas da música brasileira. Mas esse verso é sofrível.
A relação entre a aceitação pública de uma canção e sua genialidade poética não é direta. Mesmo a percepção de uma canção como sofisticada ou lixo cultural não tem uma ligação muito clara com a excelência da letra.
É por isso que relativamente pouca gente conhece Itamar Assumpção, um dos melhores letristas que eu conheço. Quer dizer, deve ser também por azar, por conta do estilo experimentalista, talvez pela época em que ele viveu, por marketing ruim do produtor... Mas, de forma geral, tem a ver com o princípio de que a aceitação popular de uma canção não tem necessariamente relação com sua genialidade (no caso, atenho-me à poética, já que não entendo de música) (Tampouco posso dizer honestamente que entendo de poética, mas posso dar pitaco. Ninguém lê isto mesmo).
Conheci Itamar Assumpção em 2012. Lembro-me do ano porque me lembro de onde o conheci: na Vertical Escalada. Eu estava terminando o terceiro colegial e passei alguns meses frequentando o local, escalando e brincando de slackline. Época massa. Também foi lá que conheci Calle 13, uma dupla de rap portorriquenha muito boa.
A música que me apresentou Itamar Assumpção foi "Que tal o impossível". Acho que é uma das melhores músicas brasileiras que conheço. Todo mundo que houve gosta. A letra se baseia na repetição de pretéritos do subjuntivo na primeira pessoa do plural:
Que tal se nós dois vivêssemos do jeito que nós quiséssemos [...]. Que tal se realizássemos aquilo que nós sonhássemos, maçãs macias comêssemos, que tal se nós nos beijássemos.
Foi uma dificuldade na época encontrar músicas de Itamar para baixar. Consegui com um colega de escola, que me passou, além do álbum "Beleléu, Leléu, Eu" de Itamar, o "Acabou Chorare", apresentando a mim os Novos Baianos. Que momento!
"Beleléu, Leléu, Eu", que pela grafia nova seria "Beleleu, Leleu, Eu", foi o álbum debutante de Itamar, acompanhado pela banda Isca de Polícia. A primeira canção é "Luzia", basicamente uma ameaça misógina musicada de violência doméstica. A segunda canção, "Fon fin fan fin fon" é uma música fofinha, cantada por uma mulher que desconheço, com sons psicodélicos ao fundo que lembrar o que seria um jogo de videogame de Alice no País das Maravilhas.
O álbum continua com muito experimentalismo e psicodelismo. As letras são legais, mas nada que poeticamente salte aos olhos. Passa uma, passa outra, e chega "Nega música". Essa eu acho mais bonita:
Quando você menos espera ela chega, fazendo do teu coração o que bem ela fizer. [...] Quando você menos espera ela toca o fundo do teu coração, assim como uma mulher.
"Beleléu, Leléu, Eu" termina com "Nego dito", cuja versão classe-média cidade-grande é a canção "Sou playboy", de Gabriel, o Pensador:
Eu me invoco, eu brigo, eu faço, eu aconteço, eu boto pra correr. Eu mato a cobra e mostro o pau pra provar pra quem quiser ver e comprovar. Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito.
Os melhores álbuns de Itamar, para mim, são os Pretobrás. "Pretobrás: Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes?" foi o último álbum de Itamar lançado em vida. Sua segunda faixa é "Abobrinhas, não", de Alice Ruiz:
Cansei de ouvir abobrinhas! Vou consultar escarolas. Prefiro escutar salsinhas, pedir consolo às papoulas e às carambolas.
A sexta canção é "Vida de artista", que tem uma letra bem gostosa e lembra o poema "um bom poema", de Leminski:
Na vida sou passageiro, eu sou também motorista. [...] Agora sou mensageiro, além de paraquedista. Às vezes mezzo engenheiro, mezzo psicanalista. [...] Sou galo no meu terreiro, nos outros abaixo a crista, me calo feito mineiro, no mais, vida de artista.
Uma característica de Itamar que aparece um pouco nessa música, assim como na canção "Petrobrás", é o uso de expressões estrangeiras para compor seus versos. Outros exemplos do mesmo álbum incluem "Pöltinglen":
Um guten morgen, ja, um guten tag e olha lá, um galo cocoricó e lá vem, das kind, alô, olá, pra escola, lalaralá.
E "Por que que eu não pensei nisso antes?":
Por que que eu não pensei nisso antes? Pour quoi j'ai ne pas pensé à ça avant?
A décima quarta música do álbum se chama "Ich liebe dich" ("eu te amo") e mistura também alemão com português. No álbum Pretobrás III, Itamar cantaria, na música "Fundamental":
Pra mim é fundamental saber se, pra Eva Braun, Hitler disse mais "mein Kampf" ou mais "ich liebe dich, frau".
A faixa suprassumo do álbum é "Dor elegante", a versão musicada de "um homem com uma dor", obra de Leminski, cantada por Zélia Duncan com Itamar. Já falamos desse poema aqui:
Um homem com uma dor é muito mais elegante: caminha assim de lado, como se chegando atrasado andasse mais adiante. Carrega o peso da dor como se portasse medalhas.
"Apaixonite aguda" é um poema:
Quando estou longe, quero ficar perto. Quando estou perto, quero ficar dentro. Quando estou dentro, quero ficar mudo. Quando estou mudo, quero dizer tudo.
A canção "Olho no olho" nunca foi tão atual:
Por cabo, TV, satélite, por rádio, via internet, por modem, fio ou telex, bom mesmo é o tête-à-tête. [...] Cartão postal é bacana, mas bom mesmo é ter você na minha cama. Mensagem não é consolo, bom mesmo é ali, olho no olho.
No "Pretobrás III" ele retoma essa temática, em "Devaneio":
O homem inventou o e-mail porque não consegue ser inteiro.
E por aí vai. Itamar Assumpção é um dos músicos mais poéticos que conheço.
"Pretobrás II: Maldito Vírgula" foi lançado postumamente, em 2010. A terceira faixa, "Je t'aime mais que o Jérôme", é uma de minhas canções preferidas de Itamar. Como podemos imaginar, ele mistura francês e português (de novo):
Le monde parle français. Une femme, une pomme, une serpent, um lobisomem, uma laranjinha doce... Acho chic quando se diz que quer marier en Paris, comigo na Notre-Dame... Mas por mais que enchanté, au revoir, j'ai crié, je e si, você cadê? Je t'aime mais que o Jérôme.
Mas o crème de la crème de Itamar está no "Pretobrás III: Devia ser proibido". A maioria das letras é, de verdade, muito, muito boa. "Anteontem", "Eu tenho medo", "Grude", "Ninguém como você"... Também está nesse álbum minha querida, "Que tal o impossível".
Uma das melhores do álbum é "Enquanto uns ficam falando"
Enquanto uns ficam matando, outros tratam de salvar. Se não é doença, é fome ou bicho-homem, é simples falta de ar. [...] Milhões de anos passando e não param de passar, Ano Novo vem chegando, este ano já vai terminar. A Terra segue girando e não para de girar, primavera vem chegando, o inverno já vai terminar.
Talvez a melhor do álbum seja "Devia ser proibido", que aparentemente é de Itamar e Alice Ruiz. Uma letra de arrepiar:
Devia ser proibido: uma saudade tão má de uma pessoa tão boa; [...] dizer "não vou mais voltar", sumir pelo mundo afora; alguém com tudo pra dar tirar o seu corpo fora. Devia ser proibido: estar do lado de cá, enquanto a lembrança voa; reviver, ter que lembrar e calar, por mais que doa; chorar, não mais respirar; dizer adeus, ir embora. Você partir, e ficar pra outra vida, outra hora: devia ser proibido.
E, para terminar, outra parceria de Itamar e Alice (acho que a letra é de Alice), "Milágrimas", do álbum "Bicho de 7 Cabeças: Volume II":
Em caso de dor, ponha gelo, mude o corte de cabelo, mude como modelo; vá ao cinema dê um sorriso, ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo. Se amargo for já ter sido, troque já esse vestido, troque o padrão do tecido; saia do sério, deixe os critérios, siga todos os sentidos, faça fazer sentido. A cada mil lágrimas sai um milagre.
Caso de tristeza, vire a mesa, coma só a sobremesa, coma somente a cereja; jogue para cima, faça cena, cante as rimas de um poema; sofra penas, viva apenas. [...] Mas se apesar de banal, chorar for inevitável, sinta o gosto do sal, do sal, do sal. Sinta o gosto do sal, gota a gota, uma a uma, duas, três, dez, cem, mil lágrimas, sinta o milagre. A cada mil lágrimas sai um milagre.
Quantos peixinhos será que cabem em mil lágrimas?
Figura de Aline Zaninella de Oliveira Cardoso.
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